A Semana Santa, semana que antecede o evento cristão Páscoa, é um grande feriadão que acontece em países como Espanha e Itália devido à forte tradição católica presente ali. Na época de Semana Santa trabalhadores e estudantes estão liberados de comparecer ao trabalho ou a escola. Como eu vivia na Espanha no ano passado, também fui contemplada com esta semaninha de folga das aulas da faculdade. Passei então a organizar uma
trip para preencher este tempo livre. O destino escolhido foi a Itália.
A Itália sempre foi um país que eu queria conhecer, porém não sabia exatamente o que ver ou aonde ir. São inúmeras as cidades turísticas e a gente fica naquele sentimento de "não se pode perder nada". Quero dizer, não é somente Roma com seu Coliseu e Vaticano que me motivava a ir à Itália. Eu tinha vontade de conhecer obras de artistas famosos como Michelangelo e Da Vinci, tinha vontade de ver as ruínas romanas de Pompéia, andar de gôndola em Veneza e passear por aquelas ruazinhas estreitas em uma cidade típica italiana, onde todos falam alto e gesticulam bruscamente. Aliás, conhecer a vida italiana de fato me parecia tão fascinante quanto conhecer todos estes pontos turísticos que mencionei. Se ficasse só em Roma, eu provavelmente não veria a "vida típica", mas sim um monte de turistas correndo e se espremendo para tirar fotos.
Bom, consultando sites de passagens aéreas e com o mapa da Itália aberto, tracei rapidamente como eu gostaria que fosse meu roteiro de viagem. Era importante localizar as cidades mais próximas, ou as que eram "caminho" entre uma e outra. Depois de decidido era mais fácil, era só comprar o transporte (ônibus ou trem) entre uma e outra. O roteiro ficou então o seguinte:
- Roma: desceria no aeroporto Ciampino, em Roma, capital da Itália. Foi o que fiz, de fato. Fiquei 4 dias inteiros na cidade, basicamente andando de um lado para o outro, tirando fotos e visitando todo acervo patrimonial que consegui. Eu cheguei primeiro e ao final do dia chegaram meus amigos que viviam comigo na Espanha. Seguimos viagem juntos. Roma fica bem no "meio" da Itália e dela rumamos para o sul: Napoli.
Museu do Vaticano, Roma, Itália
Tudo é meio longe em Roma, então tem-se que estar preparado para tomar transporte público e tem um tênis confortável para caminhar. Dica: hostels mais baratos normalmente estão afastados do centro de Roma.
- Napoli: ou Nápoles, é uma cidade no sul da Itália (região da Campania) e que possui ruínas tão antigas ou mais que as de Roma. É conhecida por alguns fatos interessantes, como, por exemplo, ser a casa da máfia italiana e do time de futebol SSC Napoli, onde jogou o Maradona. Além disso, já foi considerada a cidade mais suja da Europa.
Ao chegar na cidade, confirmamos que era sim a casa da máfia, porém uma máfia mais "tradicional", já não tão "atuante" em âmbito nacional quanto outras máfias mais "novas" - que estariam localizadas em regiões como Palermo ou Sicília. Muitas palavras entre aspas, pois foi dessa forma que me explicaram lá na cidade.
Mas resumindo: há máfia. Ela é, por tradição, a dona da boca, controla o tráfico da cidade, porém não tem o glamour que já teve em anos anteriores. Por outro lado, o fato de ter máfia torna a cidade, de certa forma, menos perigosa aos turistas, visto que não há tanto assaltos e roubos quanto em cidades como Milão. Aquela velha história de que o turista é o cliente. Mesmo assim: cuidado dobrado!
Em relação à sujeira da cidade, também confirmamos. Chegamos no domingo (de Páscoa), então tudo estava fechado e se via lixo para todo o lado. Papéis e sacos plásticos voando por aí, sabe-se lá por quê. Ok, podemos viver com isso. A arquitetura da cidade, bem como seu porto, são exatamente como os vemos em fotos clássicas de Napoli e compensam muito os contras. As ruínas subterrâneas da cidade também são ponto alto (elas têm muitos quilômetros de extensão e boas histórias de como viviam os romanos lá embaixo).
Aliás, foi em Napoli que vimos a verdadeira vida italiana: pudemos conversar com pessoas, tomar uma cerveja na beira do porto olhando o mar e ouvir o dialeto (ou língua) napolitano. Por pouco não vimos o SSC Napoli saindo de um hotel - havia repórteres e fãs esperando para ver os jogadores - porém já não tínhamos mais tempo para permanecermos ali.
Embora tenhamos reservado 3 dias para Napoli, a intensão era visitar a cidade em um só dia. O dia seguinte reservamos para visitas cidades arruinadas pelo vulcão e o terceiro dia guardamos para passar na ilha de Capri.
- Ercolano, Vesúvio e Pompéia: 2 cidades e um vulcão em um dia. Ercolano, ou Herculano, assim como Pompéia, é uma cidade onde foram encontradas ruínas romanas de uma cidade inteira que foi soterrada e destruída pela erupção do vulcão Vesúvio, há milhares de anos. As ruínas de Ercolano estão muito bem preservadas e os visitantes podem caminhar por entre as ruas e casas (semi-inteiras) da cidade. É uma cidade bem menor que Pompéia, mas a visita vale a pena, devido à preservação.
De Napoli até Ercolano tomamos um trem intermunicipal comum. O próximo passo era irmos até o vulcão Vesúvio. De Ercolano, portanto, tomamos um destes transportes privados de van, que nos levou até lá, nos esperou e nos trouxe de volta a cidade Ercolano.
Boa parte do vulcão se sobe com a van, mas para chegar no topo, só a pé mesmo. É íngreme e cansativo, tanto que tive que parar para descansar no meio do caminho. Chegando no topo, lá na cratera mesmo, acabei me decepcionando: não vi lava. Minha falta de conhecimento em geologia me iludiu me fazendo pensar que veria lava na cratera do vulcão (dã). Ok, hoje sei que só é possível ver em vulcões ativos (o Vesúvio é inativo, felizmente). Mas é legal ver que o solo lá é bem diferente e empoeirado, de uma forma que só havia visto lá. Tendinhas de souvenirs vendem pedras e outras bugigangas superfaturadas que dão muita vontade de comprar - mas a sensatez unida à pobreza impedem o ato do consumo. Depois do vulcão, rumamos a Ercolano para tomar um trem a Pompéia.
Cratera do Vulcão Vesúvio, Itália
Pompéia é gigante. É notável o centro cultural que ela representava para os romanos: coliseu, teatro, os templos, etc. A cidade foi destruída pela erupção do Vesúvio em 79 D.C e ficou oculta até o século XVII. As casas eram grandes, maiores que as que vimos em Ercolano, e as ruas compridas e largas. Até mapa recebemos para caminhar entre as ruínas. Uma curiosidade: o teatro de Pompéia serviu de palco para a gravação de um show do ACDC, hoje disponível em dvd. E de fato o teatro está completamente conservado.
Outra questão interessante é que podemos ver corpos remanescentes de pessoas que morreram com a erupção do vulcão. Na realidade, o processo de conservação dos corpos é o seguinte: muitas cinzas humanas estavam ainda conservadas no "formato" do corpo exato em que a pessoa morreu, porém eram cinzas e desabariam facilmente. Eles cobrem as cinzas com uma massa que posteriormente seca e endurece, permitindo manter aquela forma, como esculturas. É triste, mas interessante. Havia um par de adultos, uma criança e até um cachorro.
Depois de Pompéia, voltamos a Napoli para dormir e no dia seguinte fomos à ilha de Capri.
Cidadãos de Pompéia pelo Vulcão Vesúvio em 79 D.C (Foto por Karla Keys)
- Ilha de Capri: um dos lugares mais bonitos que já vi. A Ilha de Capri é um local turístico que oferece programas para todos os gostos: praia e mar azul, mergulho, passeios de barco, trilha ecológica, visita a cavernas, bares, restaurantes, lojas, teleférico, casas de veraneio chiquérrimas, boutiques, enfim, tudo que se pode pensar. Chegando na ilha, temos que tomar uma funicular em direção ao topo, visto que é uma ilha de formação rochosa e íngreme. Depois de subir, caminhamos pela cidadezinha, passando pelas ruas estreitas e fomos subindo cada vez mais, até a hora em que chegamos a uma reserva natural. Lá o pessoal costuma fazer trilhas e admirar as formações rochosas à volta possíveis de serem vistas em função da altura. Depois passamos por um lado da ilha onde se encontram casas gigantescas de veraneio.
O pessoal fez um passeio - eu não quis porque era caro - de tomar um barquinho a remo e passar dentro das cavernas. Elas tinham luz natural azul (provavelmente alguns raios de luz externos que eram refletidos pelas rochas e água iluminando, assim, a caverna). Vi o vídeo e era muito bonito.
Para chegar em Capri, tomamos um barco no porto de Napoli. A ida e volta devem ter custado uns 30 euros, mas valeu muito a pena. No final do passeio, andamos de teleférico, compramos alguns souvenirs e descemos a funicular.
Em uma das cavernas da ilha de Capri (Foto por Karla Keys)
Passamos mais uma noite em Napoli e na manhã seguinte tomamos um trem em direção a Firenze (Florença). Se tivessemos iniciado o trajeto em Napoli, teríamos seguido somente em direção ao norte, passando por Roma e depois Florença, porém este trajeto não foi possível em virtude dos preços de vôos, incompatíveis com o que nós dispúnhamos para fazer o mochilão. No fim, chegar em Roma, descer até Napoli e depois subir novamente com destino a Florença acabou sendo mais barato.
Os trajetos entre uma cidade e outra fizemos de
Trenitalia.
Descrevi neste post um período de 7 a 8 dias. Ainda faltam mais 7. As cidades que ficarão para o post seguinte são: Florença, Pisa, Veneza e Milão.